sábado, 13 de dezembro de 2008

Cá entre nós (eu e meus eus)

(Desconheço autor da foto)

Há aqueles pra quem a palavra dita,
é como oásis para a alma sedenta...
Eu prefiro a palavra ecoando
A que passa, transpassa
tácita, soturna, hermética
Propagando-se entre as linhas
Dessa página em branco.

domingo, 7 de dezembro de 2008

Da fúria

A natureza indócil se abala
O incauto sofre sua fúria
E sob olhos encharcados
de líquidos vermelhos barrentos
os corpos se mesclam...
Os olhos não crêem
Os olhos usam vendas...
Pseudo deuses do universo
dominam as regras dos homens,
Mas desconhecem as leis da causalidade
Que olhos perplexos agora lêem
em letras de lama, sangue e lágrimas.


Ps.: Nosso Estado está se refazendo e voltará em breve a ser a nossa sempre Santa e Bela Catarina.

Pensamentos soltos

Por não desejar ser eu mesma o tempo todo, por isso escrevo. E quando escrevo sou várias.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Sobre o tempo (e o amor)

Foto: Elis Zampieri

E eu descubro a paz quando você me olha e teus olhos são como os meus. Eles me contam do tempo que tinha seu tamanho e seus sonhos e de quando meus pensamentos viviam em férias. Mas eu já caibo inteira no seu abraço. E eu te vejo agora construindo lógicas, falando de foguetes e naves, de dinossauros e capitais. Tão pequeno que quase cabia nas minhas mãos abertas, desejosas de ser coração e delicadeza pra poder tocar tanta fragilidade. E eu te sentia tão meu. Hoje você é vida que me escorre. Mas você compensa amor com amor e me faz ver que o tempo amadurece o fruto e o sol deixa-o ainda mais doce. E porque a natureza é velha e sábia senhora, eu busco a intensidade que ela me oferece ainda que a brevidade me roube a sensação do vento que brinca com os meus cabelos numa tarde quente e do sabor do seu beijo e da sua boca sugando meu rosto. Porque tem coisas que duram apenas uma eternidade. E enquanto o tempo te leva pra passear eu junto letras para embrulhar esse pacote de lembranças e me perco olhando as pétalas que voam. Elas já me perfumaram as mãos e "por desfolharem-se é que não têm fim". (Cecília Meireles) E eu vivo dessa magia que transforma pétalas amarelecidas em buquês de saudade.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Senhora Chiquetosa

Equilibrando-se elegantemente no scarpin caramelo, ela reclama da micose que lhe tomara os dedos dos pés e que se proliferava rapidamente nos últimos dias. Alguém aconselha:
_Creolina!!! É um santo remédio! E desabafa esses pés, se não queres perder os dedos!
_Creolina??? Mas isso lá é remédio de gente?
_É, de gente não é não, mas cura.
Era a segunda pessoa a lhe falar isso. A enfermeira da farmácia do seu Manoel já havia feito a indicação, sinal de que o germicida fétido era mesmo eficaz. Convencida, dirigiu-se até a lavanderia encarregando a faxineira do tratamento diário dividido em duas sessões. Logo pela manhã e à tarde.
Pelo corredor, no seu toc-toc personalizado, reconhecível até mesmo quando substituído por um único toc de passo manco, no seu andar refinado ela adentra a sala da direção com o sapato de bico fino na mão. Alguém reclama do cheiro insuportável que se alastra por onde passa. Ela não perde a pose.
Reaparece na sala com um frasco de pomada nas mãos, senta-se na cadeira de estofado cor de abóbora, e começa a massagear o ombro direito, acometido segundo a própria, por uma bursite daquelas de tirar o sossego. No rótulo da embalagem lia-se: CALMINEX, uso veterinário. Indicação da avó.
No dia seguinte, pede para a secretária fazer uma ligação, marcando uma consulta com a doutora Camila.
De pronto ela toma a agenda e completa a ligação. Do outro lado da linha uma voz suave atende.
_Clínica Veterinária Cães e Cia bom dia! Em que posso ajudá-la?