poesia não serve pra nada
é das maiores inutilidades da vida
não deduz imposto de renda
não mata fome, não enche barriga
não acumula pontos
não dá dias pra aposentadoria
não te deixa mais magro
nem tampouco mais bonito
não atrasa as rugas
nem enrijece músculos.
não serve para nada também um poeta
de que vale ver a beleza do mundo
se a feiura impera?
Ingênuos todos os poetas
em vez de caixa de ferramentas
continuam a carregar sua caixa de brinquedos
feito meninos com seus carrinhos de rolimã
escorregam palavras poema abaixo.
O que se faz com um poema?
nada, direis.
Uma vassoura é útil
mas um poema...
não há o que se fazer com ele
e ainda assim, escreveis
que seria se desse dinheiro?
seria o céu
e os anjos venderiam poemas
em feiras na praça
poesia a céu aberto!
haveria poemas para todo gosto
de toda cor, preço e tamanho
os químicos testariam fórmulas
com as mais perfeitas combinações de palavras.
Os professores não trabalhariam com métricas
ensinariam cheiros, sabores, memórias...
o mágico, transformaria palavras comuns
em analogias perfeitas.
haveria fábricas de palavras por todos
os cantos do céu.
e os livros seriam a moeda corrente. [E.Z]
sexta-feira, 4 de abril de 2014
domingo, 26 de janeiro de 2014
Desenhador de rotas
Você pode deixar tudo como está, conservar-se na sua zona de conforto. Mas haverá sempre a possibilidade de refazermos a rota caso nossa bússola interna aponte erros de cálculo e equívocos na direção. Haverá sempre mais que um caminho. Nunca um único. E a vida é feita de escolhas, aprendemos isso cedo, embora as vezes diante da dúvida inquietante da decisão, preferíssemos passar o ônus adiante, fornecer uma procuração pra que alguém respondesse por nós. A liberdade tem dessas coisas. Imatura é nossa ideia juvenil que acredita que liberdade é a melhor coisa que existe. Não é. Ou melhor dizendo, nem melhor, nem pior. É tão somente a condição de nos dá, como já disse Augusto Comte "o direito de fazer o próprio dever" Não há bônus sem ônus. Normalmente não é isso que acontece, salvo alguns poucos acasos afortunados que excedem à regra esse é o preço e não há como fugir. É o custo da gente crescer, ser gente grande. Todo mundo, nesse andar que é a vida vai se deparar com incontáveis pedras no caminho, porque no meio do caminho tem sempre uma pedra, já avisava Drummond. Até aí é igual pra todo mundo, a diferença é o que vamos fazer com elas: construirmos castelos ou enfiá-las nos bolsos e mergulhar em um rio. As escolhas...
Escritos
Estava escrito nas estrelas, no bilhete entregue pelo pombo correio,foi profetizado nas cartas, lavrado em ata, perfurado nos troncos das árvores, cravado na pedra, exposto no outdoor, tatuado na pele, pichado no muro, decifrado nos códigos, aconselhado pelos astros. Saiu no jornal, os fogos no céu revelaram, foi desenhado na areia, descoberto na parede das cavernas, saiu em decreto, virou manifesto, o mapa apontou: Só havia um caminho.
[...]
Amar é um verbo doído desde sua raiz, na sua origem, no seu radical. Amor é dor que desatina sem doer já disse Camões e assim como nos arrebata de alegrias nos preenche de seus contrários. É uma espécie de pacote. Não tem como levar só amor. Não se vende amor no varejo e há sempre a possibilidade, o risco. A gente leva e, pacote aberto experimenta a dor e a delícia. Amor dói principalmente porque no pacote vem junto distância, saudade, convivência com a dor do outro que amamos, perda, frustração, decepção. E que não venham com essa conversa que amor não faz sofrer. Faz sim. Amar dói tanto que até seu contrário que suporia ausência de dor, dói. Desamar dói tanto quanto. É um processo doloroso que não tem a ver com deixar de amar, mas com desaprender para reaprender de um jeito diferente porque há mesmo muitas formas de amor. O amor é uma espécie de camaleão dos sentimentos, troca de roupa e se camufla conforme as circunstâncias. E amar, esse querer estar preso por vontade, dói. Porque sabe-se como barco no porto que sua natureza é o fluxo, o curso, o movimento, que seu destino não é o cais. E é preciso desancorá-lo, soltar as amarras e deixar ir. Desamar é difícil pra caramba! Porque a gente não quer, a gente não quer, mas a gente precisa. Para doer menos! [E.Z]
domingo, 24 de março de 2013
Aos trinta e poucos
De repente a gente acorda e se dá conta. Não temos mais
quinze anos de idade. E isso não tem a ver necessariamente com a forma como você se
sente. Mas é assim que os outros te veem. Não são poucas as vezes que te
chamarão de senhora e você irá torcer o nariz. Você não gosta mas se resigna.
Respeito pela sua posição você pensa, tentando encontrar uma justificativa.
Você ainda carrega as coisas da meninice. É boba, imatura,
carente, emburrada, teimosa, geniosa. A diferença é que junto com tudo isso
você traz uma mochila nas costas carregada de coisas que os acúmulo dos anos
inevitavelmente te dão de presente. Você
já viveu muita coisa. Já estudou, batalhou por emprego, já teve seu tapete
puxado muitas vezes, fez escolhas importantes, assimilou perdas, já deu a volta
por cima, por baixo... Antes você só dava voltinhas. E acompanhada.
Talvez a gente ainda não saiba. Mas somos as mais bonitas
das mulheres. Enganou-se Nelson Rodrigues quando escreveu que toda mulher
deveria ter 14 anos. Não Nelson. Elas deveriam ter trinta e oito. Nós já
sabemos que uma mulher não diz tudo despindo o vestido. Sabemos também que se
for pra sofrer convém ser por uma boa causa e que não é negócio resguardar-se diante da dor.
Pelo menos não por muito tempo. Somos confusas. Vivemos no caos. Mas acreditem.
Sabemos bem o que queremos. E o que não queremos.
Sabemos burlar alguns
decretos e já descobrimos o que é ter uma vida interessante. Nos permitimos ser
doidas. Já descobrimos que sanidade full time, faz mal a saúde.
Não sonhamos mais em ser resgatadas da torre de um castelo.
Mas acreditamos no amor. E queremos que nosso amado enfrente todos os dragões, feras
famintas e tudo que ousar interromper nossos passos, como diria Roberto Carlos.
Não acreditar é o primeiro passo para não existir.
O problema com esta faixa de idade, dizem, é achar uma que
não esteja terminando alguma tese ou TCC. Somos mais inteligentes, informadas e
cultas, mas invariavelmente mais irritadas
e histéricas. Somos um vitral de cores, partes,
peças. Mas não mais desejamos nossas
metades. Somos inteiras. Não queremos alguém que nos preencha. Queremos alguém que
nos transborde.
Somos Madames Bovarys. Maravilhosas. Nos achamos e merecemos
ser achadas.
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